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Propagação vegetativa por estacas

Bases Fisiológicas da Iniciação de Raízes nas Estacas

* Substâncias de Crescimento nas Plantas

Para a formação de raízes adventícias em estacas, são necessários certos níveis de substâncias de crescimento natural na planta, sendo umas mais favoráveis que outras. Há vários grupos de tais substâncias, dentre eles as auxinas, as citocininas e as giberelinas. As auxinas são as de maior interesse no enraizamento de estacas. Além dos grupos citados, é provável que haja outras substâncias, de ocorrência natural, que desempenham alguma função na formação de raízes adventícias (Hartmann e Kester, 1976, citados por Paiva e Gomes, 2001).
A auxina de presença natural é sintetizada principalmente nas gemas apicais e nas folhas jovens e, de maneira geral, move-se através da planta, do ápice para a base (Hartmann e Kester, 1976, citados por Paiva e Gomes, 2001).
Dentre os compostos com atividades auxínicas têm-se o ácido indolacético, o ácido indolbutírico, o ácido naftalenoacético e o ácido 2,4-diclorofenoxiacético, comprovadamente indutores de enraizamento.

As citocininas são substâncias que estimulam a divisão celular e, quando em níveis relativamente altos, há formação de gemas; no entanto, inibem a formação de raízes.
As substâncias reguladoras de crescimento das plantas, que formam o grupo das giberelinas, parecem não ser necessárias para a formação de raízes adventícias e estacas caulinares. Ao contrário, os testes realizados em diversas espécies de plantas mostram uma inibição do enraizamento. É possível que o efeito inibitório das giberelinas no enraizamento de estacas seja causado pelo estímulo ao crescimento vegetativo, que compete com a formação da raiz (Hartmann e Kester, 1976, citados por Paiva e Gomes, 2001).

* Efeitos de Folhas e Gemas
É de grande importância no enraizamento de estacas, em virtude da produção de auxinas e de outras substâncias que atuam no enraizamento. Em algumas estacas a remoção das gemas reduz quase que por completo a formação de raízes. Ao remover um anel de casca, abaixo de uma gema, a formação de raízes é reduzida, impedindo o fluxo de substâncias promotoras, pelo floema, para a base da estaca.
Há muitas provas experimentais de que a presença de folhas em estacas exerce forte influência estimuladora da formação de raízes. Os carboidratos, resultantes da atividade fotossintética das folhas, também contribuem para a formação de raízes, embora os efeitos estimuladores de folhas e gemas se devam, principalmente, à produção de auxina (Hartmann e Kester, 1976, citados por Paiva e Gomes, 2001).

* Inibidores Endógenos de Enraizamento
As estacas de algumas plantas de difícil enraizamento não chegam a formar raízes, em virtude da presença natural de inibidores químicos. Em algumas plantas estes inibidores podem ser lixiviados, colocando-se as estacas em água corrente, aumentando assim a capacidade de enraizamento.
A maior ou menor capacidade de enraizar vai depender do balanço entre as substâncias promotoras e inibidoras do enraizamento, que, de modo geral, é muito variável entre as espécies (Hartmann e Kester, 1976, citados por Paiva e Gomes, 2001).

Fatores que Afetam a Propagação por Estacas
Dentre os vários fatores de que depende o enraizamento de estacas, destacam-se os ambientais, o estado fisiológico, a maturação, o tipo de propágulo, a sua origem na copa e a época de coleta, que influenciam, sobretudo, na capacidade e na rapidez de enraizamento (Gomes, 1987, citado por Paiva e Gomes, 2001). O sucesso, no entanto, depende de fatores internos e externos.

* Fatores Internos

- Espécie
A capacidade de emissão de raízes por um ramo é uma característica varietal, devido à interação de fatores inerentes, que se encontram presentes em suas células, bem como as substâncias produzidas pelas folhas, como: auxina, carboidratos, compostos nitrogenados e vitaminas. Portanto, a formação de raízes está associada à fisiologia, à química e à estrutura anatômica.
A macieira, cerejeira, pessegueiro e mangueira apresentam dificuldades de enraizar, devido à presença de inibidores de enraizamento. O tratamento com água aumenta a capacidade de enraizamento (Simão, 1998).

- Condição fisiológica da planta-mãe
Há consideráveis evidências de que a nutrição da planta-mãe exerce forte influência sobre o desenvolvimento de raízes e ramos (Hartmann e Kester, 1976, citados por Paiva e Gomes, 2001).
Estacas colhidas de uma mesma matriz e submetidas aos mesmos tratamentos respondem diferentemente quanto à taxa de enraizamento, em diferentes épocas do ano. Isto está diretamente ligado ao teor de carboidratos armazenados na matriz.
O teor de carboidratos na planta-mãe deve ser alto e o de nitrogênio baixo. O teor de fósforo e de potássio tem efeito menor sobre o enraizamento de estacas (Paiva e Gomes, 2001).
Os fatores que determinam a condição fisiológica são, ainda, relativamente desconhecidos, muito embora sejam fundamentais, principalmente no domínio da enzimologia para o controle do processo. Sabe-se, no entanto, que elevado nível de reservas com uma elevada relação C/N favorece o enraizamento, desconhecendo-se, todavia, o metabolismo dos carboidratos (Gomes, 1987, citado por Paiva e Gomes, 2001).
As reservas parecem ser indispensáveis à sobrevivência do propágulo até o enraizamento e posterior desenvolvimento. Mesmo nos casos em que há retenção das folhas pelo propágulo, as reservas a um nível conveniente facilitam a emissão de raízes e incrementam a fotossíntese. Acrescente-se que boa parte destas se transferem para a base da estaca, contribuindo para a formação de primórdios radiculares (Gomes, 1987, citado por Paiva e Gomes, 2001).
Em plantas com dificuldade de enraizamento, podem-se usar tratamentos para alterar artificialmente as condições fisiológica da planta-mãe ou de partes dela, por exemplo, o anelamento de ramos, que provoca aumento no nível de auxinas naturais acima do corte e diminuição abaixo (Paiva e Gomes, 2001).

- Idade da Planta-mãe
Estacas de plantas jovens enraízam melhor que as de plantas velhas. O rejuvenescimento, por meio de poda, favorece o enraizamento. Estacas de plantas jovens, procedentes de sementes, enraízam com maior facilidade que as estacas retiradas de plantas da mesma espécie, porém mais velhas (Simão, 1998).
Em plantas que se propagam facilmente por estacas, a idade da planta-mãe tem pouca importância, porém, em planas difíceis de enraizar, este fator é relevante. Em geral, estacas tomadas de plantas jovens (crescimento juvenil) enraízam com maior facilidade que tomadas de ramos mais velhos (crescimento adulto) (Hartmann e Kester, 1976, citados por Paiva e Gomes, 2001).
Pode-se dizer que quanto mais juvenil o material, maior será o sucesso do enraizamento, quer expresso em porcentagem, quer pela rapidez de formação e, ainda, pela qualidade das próprias raízes, bem como pela capacidade de crescimento da nova planta (Gomes, 1987, citado por Paiva e Gomes, 2001). O problema apresentado por material adulto é o aparecimento ou a produção de substâncias inibidoras do enraizamento.

- Época do ano
A época do ano, em alguns casos, pode exercer grande influência sobre o enraizamento das estacas. Para estacas de folhas caducas, as melhores épocas são o outono e o inverno e, para as de folhas persistentes, a primavera e o verão (Simão, 1998).
Para algumas espécies que enraízam com facilidade, a estacas podem ser colhidas em qualquer época do ano, enquanto para outras o período de maior enraizamento coincide com a estação de repouso ou com a estação de crescimento. Para cada planta específica é necessário que se determine qual a melhor época do ano para retirar as estacas, a qual está diretamente relacionada com a condição fisiológica da planta-mãe (Hartmann e Kester, 1976, citados por Paiva e Gomes, 2001).

- Tipo de estaca
O tipo de estaca pode também ser decisivo e deve-se usar o mais adequado. Com relação às estacas obtidas de ramos, a parte da copa onde é extraído o material não é indiferente quanto ao resultado do enraizamento. Por uma questão, normalmente, de maturação fisiológica, a base da copa é mais favorável que a parte superior para colheita (Paiva e Gomes, 2001).
Os ramos laterais parecem enraizar melhor e em maior número que os verticais e também apresentam o dobro de raízes que os vértices ou terminais. O enraizamento parece ser mais favorável às estacas da parte basal do ramo que as da parte superior, devido ao maior teor de amido (Simão, 1998).

* Fatores Externos

- Umidade
É fator de grande importância para o sucesso de um programa de propagação vegetativa por meio de enraizamento de estacas. A retirada das estacas deve ser feita sempre que possível pela manhã, quando estão ainda túrgidas e com maior teor de ácido abscísico e de etileno (Simão, 1998).
O ambiente seco favorece o ressecamento das estacas, reduzindo sua possibilidade de enraizamento. Umidade relativa mais alta, mantém as estacas túrgidas, favorecendo o seu enraizamento (Simão, 1998).
A presença de folhas nas estacas é um forte estímulo para a formação de raízes, porém a perda de água pela transpiração pode levar as estacas à morte antes que se formem as raízes. Alto grau de umidade relativa do ar é necessário para evitar o dessecamento das estacas (Paiva e Gomes, 2001).
Em espécies que enraízam com facilidade, a rápida formação de raízes permite que a absorção de água compense a quantidade perdida pela transpiração; porém, em espécies que enraízam mais lentamente deve-se reduzir a níveis bem baixos a transpiração pelas folhas, até que se formem as raízes. Para contornar o problema da transpiração, deve-se manter a umidade relativa do ar na região das estacas em torno de 80 a 100%, conservando-se assim a turgescência dos tecidos.
Pode-se obter esta umidade relativa com o uso de um sistema de nebulização, que proporciona a formação de uma fina película de água na superfície da folha, reduzindo assim, a transpiração e mantendo uma temperatura relativamente constante na superfície das folhas das estacas.

- Temperatura
A temperatura tem importante função regulatória no metabolismo das estacas, devendo fornecer condições para que haja indução. A flutuação da temperatura é prejudicial à sobrevivência das estacas (Bertoloti e Gonçalves, 1980, citados por Gomes e Paiva, 2001).
Temperaturas amenas, entre 12 e 27ºC, favorecem o aumento de carboidratos e o enraizamento das plantas. A estratificação das estacas a baixa temperatura inibe a formação de raízes e impede a brotação (Simão, 1998).

- Luz
Interfere na produção de carboidratos, de ramos e nas suas características, pela sua intensidade, qualidade e fotoperiodismo (Simão, 1998).
A luminosidade fornecida às estacas durante o período de enraizamento é de fundamental importância na emissão de raízes. Portanto, deve-se fornecer às estacas com folhas luminosidade máxima, de forma a propiciar um máximo de fotossíntese, para que haja acúmulo de substâncias indutoras do enraizamento (Hartmann e Kester, 1976, citados por Paiva e Gomes, 2001).
Nas condições brasileiras, a intensidade luminosa geralmente precisa ser reduzida, protegendo a planta com sombrite (50%) ou ripados, para evitar a insolação excessiva das estacas (Paiva e Gomes, 2001).

- Substrato
O substrato, no qual são colocadas as estacas, influi no sucesso do enraizamento e vai depender do sistema de irrigação a ser empregado. O meio pode influir muito não só na porcentagem de enraizamento, como também na qualidade do sistema radicular que se forma (Paiva e Gomes, 2001).
Há diferentes tipos de substrato que podem ser usados de forma isolada ou em mistura com outros. Exemplos: vermiculita, turfa, serragem, areia, casca de arroz carbonizada, moinha de carvão, terriço (Paiva e Gomes, 2001), solo (mistura de terra, areia e matéria orgânica), perlita, esfagno, pedra-pomes (Simão, 1998) e diversas outras misturas destes constituintes.
Qualquer um desses materiais deve ser suficientemente firme e denso para manter a estaca até o enraizamento e ser poroso para favorecer a presença de oxigênio e permitir a percolação do excesso de água, livre de plantas daninhas, patógenos e nematóides.


FORÇAMENTO DAS ESTACAS

As estacas que apresentam dificuldades de enraizamento podem ser tratadas por meio mecânico e/ou fisiológico.

Mecânico
Os meios mecânicos consistem em: anelamento, incisões, torções e descascamento e possibilitam o acúmulo de auxinas e carboidratos, pelo bloqueio das translocações dessas substâncias e de outros fatores de promoção do enraizamento, bem como o aumento de células parenquimatosas e de tecidos menos diferenciados (Simão, 1998).

Fisiológico
Dentre os meios fisiológicos, temos: estiolação e reguladores de crescimento.

* Estiolação
Por definição, é a exclusão total de luz. Pode ser feita pelo uso de um adesivo escuro (preto) ou velcro nos ramos ainda presos à planta, por um período de 30 a 40 dias.
A estiolação aumenta o teor de amido, acentua a sensibilidade à auxina e reduz o teor de lignina e tem sido associada a mudanças de substâncias fenólicas e à presença de parênquima descontínuo, o que reduz a barreira mecânica oposta ao enraizamento (Simão, 1998).

* Reguladores de crescimento
Muitas plantas possuem quantidade suficiente de hormônio para a iniciação radicular, enquanto outras apresentam dificuldades para enraizar (Simão, 1998).

Data Edição: 11/02/03
Fonte: Toda Fruta

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